Kober's delusions

Uma válvula de escape para o dia-a-dia. Idéias, legendas e eficácia gramatical. Bom, bem coisa de louco mesmo.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Créditos em Morfina

tenho créditos com o universo. eternamente.
aliás, se eu quisesse cometer o maior crime do mundo agora, neste momento, eu receberia o perdão do cosmo [clichê], pois tenho várias fichas em aberto com ele.
morfina. é isso que nossos dias aparentam ser, por vezes. só mais uma dose, só mais uma sensação, só mais um suspiro, só mais um paliativo. crescer dói, e encarar a vida de frente é tarefa para poucos. mas a morfina acaba, sempre, justamente na hora em que devemos escolher em qual dos times entraremos: no dos fortes, para encarar essa vida aí, ou no dos fracos, para procurar válvulas mais entorpecidas de disfarces subterrâneos pré-fabricados, ou seja, uma fábrica de morfina "do it yourself". ou melhor, fracos não.
o segundo grupo não é bem dos fracos: é dos poetas byronianos, ultra-românticos [com o senso pejorativo mesmo], pessimistas e evadidos da vida real. conheço porque vivo nesse grupo durante alguns bons momentos do meu dia. vingança, escuridão e "inatingibilidade" são guias históricos desses caras, e de quem está na turma. o pensamento do impossível mistura-se com um escapismo meloso, rotineiro, diário, natural e, por fim, desgastado. não é fácil viver nesse grupo, já que os horizontes são janelas herméticas, sem vistas algumas.

e o grupo dos fortes? esses vão à luta e cobram os créditos em aberto, supracitados. não ligam para o acontecimento nevrálgico em si, mas para as possíveis conseqüências dele. e eis um ponto de encontro: o futuro. ambos visualizam o mesmo horizonte: superar. ambos tomam caminhos que serão tortuosos por fim, pois mesmo a força gasta no esquecimento consome os poucos traços vitais que existem em nós. e, para os outros, viver afundados no spleen da alma é tortura chinesa. a diferença é que a tortura é sádica: queremos a tortura; a tortura nos leva adiante.

enfim, recompostos pelo time a que passamos a pertencer, já que a divisão da dor com outros viventes diminui a aflição, resta uma esperança. sabe-se lá qual ela seja, mas sempre resta. a volta, o fim, o começo, o novo elemento. é de nossa natureza querer se agarrar a algo maior para dar um próximo passo. e quem pode recriminar?

recriminações, morfinas, créditos, forças e fraquezas. no final, dá tudo na mesma. a noite vai chegar, tudo vai estar no mesmo lugar, mas as luzes, ao se acenderem, não vão revelar o que falta no quarto, pela simples inexistência do elemento.

e assim as coisas vão tomando formas, jeitos e rumos com os quais nunca sonhamos. afinal, quem pode prever que o certo se tornaria impossível, ou que o futuro do presente se tornaria futuro do pretérito? nem a morfina, esse anti-herói, consegue garantir o próximo alívio. o jeito é, mesmo, aprender que tudo é paliativo, recursivo e, infelizmente, efêmero demais para ter um próximo dia.

1 Comments:

  • At 15:52, Blogger MarLorenzoni said…

    eu não tenho créditos com o universo, só para constar. se eu quisesse cometer um crime, aqui e agora, o cosmo iria me punir sem hesitar.

    enfim, fiz uma pausa nos meus estudos enlouquecidos pré-vestibular pra atualizar o meu blog e dar uma olhada nos outros. gostei muito desse texto - mas ainda não consigo escolher para qual grupe correr. acho que ainda estou me decidindo, tentando entrar no dos fortes, e conseguindo só na metade do tempo...

    Eu adoro os teus textos, bruno, e esse me deixou pensando depois que eu terminei (então, se eu não terminar a matéria de física até amanhã, parte da culpa é tua, viu?haha).

    Bjs!

     

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